segunda-feira, 30 de Maio de 2011

Resumo e Análise da obra “A morte do autor” de Roland Barthes

Roland Barthes começa por nos intruduzir ao pensamento da morte do autor atraves de Balzac, dando o exemplo que na novela Sarrasine, Balzac utiliza um castrado disfarçado de mulher e escreve acerca do mesmo “era a mulher, com os seus medos subditos, os seus caprichos sem razao, as suas perturbaçoes instintivas, as suas audacias sem causa, as suas brabatas e a sua deliciosa delicadeza de sentimentos.”, questionando depois se quem fala assim é Balzac e a sua experiencia pessoal de uma filosofia de mulher, o heroi da novela ignorando o castrado que se esconde sob a mesma, ou o autor Balzac pensando ideias literarias sobre a mulher? Barthes afirma que é impossivel sabe-lo porque a escrita é a destuiçao de toda a voz, de toda a origem. Diz entao que a escrita é esse neutro, onde vem perder-se toda a identidade começando logo pelo corpo que escreve. Assim sendo e neste sentido a escrita torna-se independente do sujeito que escreve, do autor.
Ora Barthes diz-nos que sempre foi assim e que, desde o momento em que um facto é contado e não age directamente sobre o real, fora de qualquer função que não seja exercer-se como simbolo, que produz esta diferença, a voz perde a sua origem, o autor desaparece (morre) e a escrita começa. Diz-nos tambem que o sentimento deste acontecimento varia, nomeadamente consoante o tipo de sociedade, exemplificando que numa sociedade etnografica o que se pode admirar é a qualidade de prestaçao de um orador, mas nunca o seu genio, pois o orador, é simplesmente um mediador e nunca o criador de uma narrativa. A ideia de autor, surge so na sociedade moderna, pois atraves do empirismo ingles, o racionalismo frances e a fe pessoal da reforma veio descobrir-se e valorizar-se o indivíduo e o seu valor pessoal. Neste sentido afirma que é logico que na literatura o positivismo resultante da ideologia capitalista tenha concedido maior importancia à pessoa/autor. Isto porque e segundo Barthes existe uma valorizaçao da vida e obra do individuo, e a imagem da literatura corrente é centrada no autor, e na sua pessoa, valorizando-se assim os seus gostos e historia de vida como forma para valorizar o seu trabalho exemplificando com a loucura de van gogh, o falhanço do homem Baudelaire ou o vicio de Tchaikowski, tentando sempre encontrar-se explicaçoes para a obra do ponto de vista de quem a produziu, e desta forma, de uma maneira biografica, relacionar toda a sua produção.
Barthes vem agora num novo parágrafo dar alguns exemplos de autores que tentaram combater esse “império do autor”. Começando por Mallarmé, afirma ele (Barthes) ter sido o primeiro ao ver a necessidade de dar à linguagem a propriedade da expressão e da fala, retirando-a do autor; dizendo que toda a poética de Mallarmé consiste na supressão do autor em proveito da própria escrita e da restituição do seu lugar junto do leitor, através da procura do ponto onde a linguagem actua e “performa” em substituição do “eu”, tornando-a assim impossível de confundir com a “objectividade castradora do romancista realista”. Outro escritor que Barthes usa como exemplo é Valéry, que envolvido com a psicologia do eu, vem pegar na teoria de Mallarmé, para explorar e por em dúvida o Autor, através da condição essencial do verbo na literatura, ao qual “qualquer recurso à interioridade do escritor lhe parecia pura superstição”. Barthes vem também e logo de seguida neste desenvolvimento quase cronológico enunciar Proust como exemplo seguinte, apresentando a ideia de que Proust : “ao fazer de narrador, não aquele que viu ou sentiu, nem sequer aquele que escreve, mas aquele que vai escrever (o jovem do romance – mas, afinal, que idade tem ele, e quem é ele? – quer escrever, mas não pode, e o romance termina quando finalmente a escrita se torna possível) ” vem confundir de uma forma extrema a relação entre o escritor e as suas personagens e desta maneira inverte radicalmente a noção de romance, pois em vez de por a sua vida no seu romance, fez dela a sua própria obra. Para concluir esta introdução ao pensamento de autores que combateram o “império do Autor” Barthes vem agora introduzir-nos a ideia do pensamento surrealista que não poderia dar à linguagem um lugar soberano, pois como Barthes diz: “a linguagem é sistema, uma subversão directa dos códigos – aliás ilusória, porque um código não se pode destruir apenas podemos «jogá-lo» ” e como é lógico o Surrealismo ao recomendar sem fim a ilusão brusca dos sentidos e “ao confiar à mão a preocupação de escrever tão depressa quanto a cabeça ignora”, a escrita automática em suma, e ao aceitar a experiencia de uma escrita feita por vários autores ao mesmo tempo, veio ele próprio contribuir de certa maneira para a destruição desses códigos e assim combater o conceito de autor vigente naquela altura. Desta maneira Barthes chega à conclusão deste segundo parágrafo do texto com a afirmação de que a linguística vem fornecer um instrumento de análise precioso na destruição do autor, mostrando que a enunciação é um processo vazio que funciona na perfeição, sem a necessidade de interlocutores, e que linguisticamente o autor é somente aquele que escreve, sendo simplesmente aquele que diz “eu”, ou seja, a linguagem acaba por conhecer um “sujeito”, não uma “pessoa”, e que esse “sujeito”, fora do que o define, é suficiente para esgotar a própria linguagem.
Neste novo parágrafo Barthes apresenta-nos uma questão que compreende o Autor e o seu afastamento cada vez maior em relação à cena literária, dizendo que esse afastamento não é só um facto histórico ou um acto da própria escrita mas também uma relação temporal entre o acto de escrever, a experiencia do autor e o texto em si. Diz então que “o Autor, quando se acredita nele, é sempre concebido como o passado do seu próprio livro”, supondo que o Autor alimenta o livro, através da existência antes dele e do acto de pensar, sofrer e viver com o mesmo, cria uma relação de antecedência semelhante à de um pai com um filho. Ora este tipo de acontecimento segundo Barthes deixa de acontecer no escritor moderno, que nasce ao mesmo tempo que o seu próprio livro, e que não é de maneira nenhuma o sujeito passado do seu livro, e que para o escritor moderno não existe outro tempo que não o aqui e agora. Diz também que escrever já não se pode considerar uma operação de registo, como acontecia com os clássicos, que acreditavam que a mão era demasiado lenta para acompanhar o seu pensamento ou voz e que por isso acentuavam a necessidade de trabalhar sobre a forma do texto, mas sim um acto performativo, ou seja o próprio acto de escrever em si, a sua mão, desligada da voz, simplesmente escreve através do gesto, este acto, por seu lado não tem origem para lá da linguagem, pondo desta maneira em causa, toda a origem.
Desta maneira o texto, segundo Barthes, já não tem em si um sentido único professado pelo seu Autor mas sim um espaço de múltiplas dimensões onde se escrevem e contestam coisas variadas, sem nenhuma delas ser original, tornando-se assim num campo de múltiplas citações saídas do nosso mundo cultural. Através do exemplo de Bouvard e Pécuchet, Barthes afirma que “o escritor não pode deixar de imitar um gesto sempre anterior, nunca original; o seu único poder é o de misturas as escritas, de as contrariar umas às outras, de modo a nunca se apoiar em nenhuma delas,” e que o que tenta traduzir ao exprimir-se “não passa de um dicionário totalmente composto, cujas palavras só podem explicar-se através de outras palavras…”. Assim o escritor já não tem em si paixões, humores ou sentimentos mas sim um imenso dicionário onde pode ir buscar uma escrita que não pode parar, sendo o livro: um “tecido de signos, imitação perdida, infinitamente recuada.”.
Com esta conclusão Barthes afasta de todo, o autor do texto, e afirma que com o autor afastado decifrar o texto tornasse escusado, inútil, sendo que ao dar um Autor a um texto estamos a dar-lhe um último e único significado, fechando a escrita. Conveniente à critica que desta forma pretende descobrir o Autor através da sua obra, sendo que ao explicar o texto o critico vence, colmatando o facto Barthes afirma “…historicamente, o reino do Autor ter sido também o do Critico…”. Ora para Barthes na escrita moderna tudo está por descobrir, a estrutura pode ser seguida ou apanhada, mas que não tem fundo, percorrendo-se todo o espaço da escrita, que por si só faz sempre sentido, mas também, que se vai sempre evaporando, isentando-a sempre de sentido, e desta forma, ao recusar fechar o texto a um único sentido, liberta a actividade de escrever a um único fim ou sentido, assim torna-se contra-teológica, como diz, recusando Deus, razão, ciência e lei.
Voltando a Balzac, Barthes afirma que nenhuma pessoa disse aquela frase, logo que o seu lugar de origem não é a escrita mas sim a leitura. Através do exemplo das investigações de Vernant, Barthes diz que na natureza da tragédia grega o texto é construído sempre com um duplo sentido e que cada personagem apenas compreende um dos lados, neste sentido é este mal-entendido que cria o trágico, e que existe alguém que entende o sentido duplo de cada palavra, e que assim entende também a surdez de cada personagem, e esse alguém é o espectador / leitor. É desta maneira que para Barthes se compreende e revela o total da escrita, o local onde todas as multiplicidades do texto se reúnem não é o Autor do texto mas sim, o seu leitor e que os clássicos nunca se preocuparam com mais ninguém a não ser com que escreve, ou seja, com o autor, e propõe que para a devolver à escrita a sua qualidade é preciso acabar ou inverter esse mito. Sendo assim Barthes conclui afirmando que “ o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.”

Podemos agora pensar que estas ideias de Barthes não se apliquem só à escrita mas também a todo o universo das artes, ou seja, que por exemplo uma pintura se torne autónoma e independente do seu criador desde o momento em que é exposta e que cada espectador ou leitor da mesma terá uma interpretação singular da obra. Assim a pintura e o que ela representa pertencem a quem a observa e sente e não a quem a criou. De qualquer das maneiras não será o facto de essa obra ser apresentada como arte que a liberta de todas essas imposições e ao mesmo tempo não será o facto de ser arte que a liga ainda mais intimamente ao seu Autor e ao valor que adquire por ter sido criada por ele? Warhol ao criar as suas serigrafias de certa forma potencia e vem afirmar que o acto de criação de arte pode ser feito por qualquer um, pois é um processo facil reprodutível, mas por outro lado criava erros através de uma prévia aplicação de tinta na tela, erros estes que contribuíam para que cada das suas peças fosse única, acentuando e aumentando assim o seu valor de mercado. A meu ver Barthes não apresenta muitas questões relacionadas com o valor de mercado de uma obra, mas acredito que é a existência do mesmo que cria este problema e que é também por esta razão que surge o crítico, para confirmar e valorizar a obra de um certo Autor e assim, decidir o que é valido ou não de entrar nesse mercado, baseado em parâmetros de experiencia, estética e potencial de resposta do Autor relativamente às necessidades do mercado. Ora para finalizar a obra aberta ou a morte do Autor em favor do nascimento do leitor, que Barthes fala, em que o espectador tem de certa forma a leitura final sobre uma obra vem combater estas ideias acima apresentadas, e é nesse aspecto que nos encontramos, basta ficarmos à espera para saber qual é o resultado, se vence o capitalismo e os valores de mercado, ou se vence o interesse humano na liberdade de criação e leitura da arte.





Pedro Oliveira
23 de Março de 2010

1 comentário:

Alan Caldas disse...

Muito boa essa análise do texto do Barthes. Muito boa mesmo.(Alan Caldas - Dois Irmãos - RS)

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos. Tudo o que era directamente vivido se afastou numa representação.”

Debord, G., 1967, A Sociedade do Espectáculo