sábado, 5 de outubro de 2013

Cronica: "O saco" - para Art.sy Fanzine Online

Acordei naquela manha fria de Inverno, como sempre, sem vontade alguma de me levantar. No quarto escuro, os movimentos são apertados e preciso de me despachar para não perder o comboio, para o centro da cidade. A viagem com partida do subúrbio leva o seu tempo e de casa ao trabalho vai mais de uma hora de distância, por isso, naquele dia às 6h20 da manha já estava de pé. Após lavar a cara, e tomar o pequeno-almoço saio para a rua sonâmbula, iluminada, ainda e só pela luz laranja dos candeeiros, e eu, apressado, acendo um cigarro que insiste em entupir-me as narinas, enquanto que as pequenas gotas de chuva me vão molhando às prestações até à estação de comboio. Pela viagem apenas rostos sombrios e ensonados.

Cheguei a horas ao escritório da patroa, parece que não está bem com nada ela, nunca, vive para aquilo e descarrega a sua energia sobre os empregados, sempre zangada. Faço ouvidos moucos e depois da conversa e das indicações pego no material de trabalho e ponho-me a mexer com a minha colega, uma estagiária, nova, a quem a patroa tem o hábito de gritar e de chamar mosca morta, para mim, será apenas o primeiro dia de trabalho. O saco do material é pesado e as alças estão rebentadas assim como as rodinhas, o que me obriga a ter que o trazer a pulso, a esforço, durante toda a manhã.

A minha colega tem vergonha do que faz, por isso ao entrarmos no metro afasta-se de mim para não ser reconhecida como tal e não me dirige a palavra uma única vez. Após atravessarmos meia cidade debaixo de terra saímos finalmente para fazer o primeiro serviço, já estamos atrasados. Caminhamos à chuva por umas ruas até chegarmos à lavandaria. Lá dentro o chão fica automaticamente sujo com as nossas pegadas e a água trazida da rua. Tiro para fora do saco um garrafão cheio, com cinco litro de água, o detergente para a loiça, um balde, o material de escovagem e panos, ela trás consigo os extensores. Verto um pouco da água do garrafão e de detergente para dentro do balde metendo la dentro também as escovas para que ensopem. Saio para o exterior da lavandaria com uma escova, extensor, e uns panos, enquanto isso, a minha colega fica la dentro a tratar do interior, é esperta ela, o gajo que vá para a chuva. Esfregamos a montra e a porta com a escova cheia de detergente e retiramos a água com aquela coisa de raspar que se utiliza para limpar os vidros, como os miúdos nos semáforos, os cantos são passados a pano para não escorrer.

Em dez minutos o trabalho está feito, o material arrumado outra vez dentro do saco e deixamos a lavandaria, com os vidros a brilhar e com o chão imundo. Pego novamente no saco e começamos a andar em direção ao metro, o saco já começa a pesar e os ombros a doer, o realizador ri-se enquanto que as cameras e os holofotes já me fazem suar por debaixo das roupas e do impermeável.





Pedro Oliveira, 06 de Fevereiro de 2013

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"Apresentação da Defesa de Tese e Prefácio da Componente Escrita da Tese" intitulada "Ser Expressionista no séc.XXI?"

O acaso, é algo que surge ou acontece sem causa. Ora eu não acredito que qualquer trabalho, de qualquer artista surja do acaso, mesmo que ele estude o acaso, o seu trabalho vem desse estudo e não do próprio acaso. Tudo tem uma relação com algo, tudo acontece por algum motivo, como por exemplo: esta camisola que trago hoje vestida (Camisola 10 do Maradona na Selecção de futebol da Argentina), não é obra do acaso, ela foi vestida para vincar ainda mais a minha relação com a arte, o futebol e a “Mão de Deus”, como paralelismo entre a mão de Deus do Maradona e a minha mão de Deus ao criar estes trabalhos.

Não acredito que nada que um artista faça seja por acaso e no desenrolar da minha CET, acento em Deleuze a necessidade que o artista tem em criar, ora se o artista tem a necessidade de criar, como poderia essa necessidade ou a própria obra surgir do acaso, ela surge sim da relação que existe entre o artista e o mundo e com a sua necessidade de espremer para fora as suas ideias ou opiniões. Desta forma quero salientar que toda a pintura e todo o trabalho feito por mim, aqui existente, é um acto premeditado e que desde a própria dimensão da tela, ao mais ínfimo pormenor tudo é pensado para ser como tal e nada é deixado à liberdade ou à obra do acaso. Este é também um dos pontos fundamentais que eu vejo na minha Componente Escrita da Tese onde tento explicar e justificar toda a minha construção formal e conceptual.

Dado o facto de esta defesa de Tese ser composta por duas fases, a fase de exposição dos trabalhos práticos (elementos centrais da tese) e a fase da análise da componente escrita da tese, tenho que sublinhar a minha insatisfação por não me ser possível apresentar todos os trabalhos que poderiam tornar esta defesa mais concisa e ao mesmo tempo deixar vincado que nem esta pequena exposição, nem esta pequena componente escrita resumem todo o trabalho que foi desenvolvido na disciplina de projecto assim como nas outras disciplinas adjacentes que compõem o corpo de trabalho de dois anos em que decorre o Mestrado. Estes trabalhos foram seleccionados para fazer parte de uma exposição colectiva de Defesas de Tese de Mestrado, e tentam resumir o que foi desenvolvido na disciplina de Projecto assim como apresentar de forma prática as problemáticas propostas na componente escrita.

O próprio formato de defesa de tese assim como o meu trabalho assenta em duas partes distintas, a primeira de exposição e análise dos trabalhos e a segunda de leitura e análise da CET, como já referi, ou seja uma análise plástica e uma análise conceptual, digamos assim. No caso dos meus trabalhos essa dualidade ou bipolaridade de discursos também existe pois se por um lado eles assentam a nível plástico sobre alguns pressupostos que os obrigam a existir como tal, para se poderem assumir como expressivos, a nível conceptual tendem a jogar e pensar a arte contemporânea abandonando assim o discurso moderno e a pensar sobre a sociedade que nos rodeia através de símbolos que nos transportam para certo tipo de acontecimentos com o recurso constante à sátira e critica.

Começando então por fazer uma reflexão sobre os objectos aqui apresentados em relação com a proposta da CET, devo desde já afirmar que todas as referências à pintura “O sétimo golo do Sporting ao Benfica por Manuel Fernandes em 1986787” podem ser alteradas em comparação a “O Homem na Lua” aqui exposta pois é um trabalho que reformula o mesmo tipo de questões com a vantagem de pensar a uma escala mundial e não simplesmente nacional. Este trabalho assim como “ A fuga pró Egipto” pensam a pintura como forma de expressão, de pensar e passar mensagens de uma maneira subliminar, através da utilização de símbolos que se relacionam entre si e que podem ter uma aparência surreal mas que na realidade reflectem sobre a forma de como a sociedade se organiza. No caso de “O Homem na Lua” a referencia às ventoinhas eólicas não é despropositada e tenta atingir num ponto fulcral o pensamento sobre a evolução da nossa sociedade pensando sobre a colonização e expansão humana referenciando a necessidade da instalação de objectos que supostamente seriam amigos do ambiente mas que violam a paisagem, por exemplo, neste caso a estupidez vai ao ponto de não existir vento na lua.

Outros dois trabalhos aqui apresentados, são: “Yanick Jah Love” e “as costas da camisola suada de Yornanov na final da taça de Portugal de 1994/95” que se a nível conceptual brincam com a ideia do mito do jogador, quase como um deus, tentam depois a nível formal brincar com a própria arte contemporânea referenciando a arte conceptual e minimal. Como se pode ver a nível formal estes dois trabalhos nada tem a ver com os dois descritos anteriormente.

Existem também os vídeos apresentados que mais uma vez a nível de linguagem plástica são completamente distintos das propostas anteriores. Estes trabalhos servem para pensar o artista como mito e a ligação entre vida e obra do artista. No caso de “O Homeostático” essa ligação é ainda mais forte pois para alem da citação aos HomeoEstética, grupo ao qual pertenceu o professor Fernando Brito, e que na minha opinião propunha a ligação entre vida e arte, através da defraudação paródica da arte e da estética, como exemplo máximo a banda Ena Pá 2000 de Manuel João Vieira. Este vídeo apresenta-nos um homem estático a fazer poses de estátuas clássicas censurado por umas cuecas.

Esta relação entre arte e vida põe-me assim num problema que nada tem a ver com a construção da pintura. Ela existe enquanto forma de expressão de um artista.. Não estou nunca, preocupado com a possibilidade de os meus objectos virem a ser arte, pois qualquer “Merd d’artist” o é, logo o potencial de o serem é enorme. As minhas problemáticas têm a ver com a assunção do artista perante a sociedade podendo desta maneira fazer qualquer objecto que automaticamente se torna uma obra de arte. Assim as minhas preocupações como vem referido na CET são sobre a encenação de um artista e a criação de uma ficção onde o mesmo se funda com a realidade, logo a criação de pinturas desta natureza.

A CET assim como o próprio trabalho prático é a meu ver constituída por dois núcleos distintos, os dois primeiros capítulos somado ao último capítulo, já em forma de conclusão, que de certa forma tentam justificar de um ponto de vista conceptual a minha pratica artística, e um núcleo central de quatro capítulos que explica a forma de fazer pintura ou trabalhos de carácter expressivo. Estes dois núcleos são complementares e constituem na minha CET as ideias centrais do meu trabalho enquanto artista, apoiam-se e são parte integrante da estrutura uns dos outros, assim sendo a própria componente escrita da tese sofre do mesmo sindroma tanto dos moldes da defesa como da própria construção e pensamento dos trabalhos, não fosse ela parte integrante dos mesmos.

Ser expressionista no séc. XXI? Consiste na elaboração de uma pergunta que se prende na possibilidade de no séc. XXI o expressionismo poder ser um discurso coerente na construção e no pensamento da arte contemporânea. Assim, durante a leitura de toda a componente escrita da tese encontramos para além das definições bases do expressionismo e das características plásticas que definem uma obra como tal, encontramos também a relação entre elas e o meu trabalho e as condições necessárias para que esse discurso seja valido nos dias de hoje.


Pedro Oliveira, 16 de Janeiro de 2012

terça-feira, 8 de novembro de 2011

"Discurso apresentado no "Debate sobre cultura" que aconteceu na ESAD.CR no dia 24/10/2011"

Antes de mais quero aqui dizer que aceitei participar neste debate sem saber à partida que estava a ser programado por um partido politico, caso soubesse provavelmente não teria aceitado o convite pois desmarco-me do mesmo ideologicamente, e pergunto-me qual influencia partidária no desenvolvimento da cultura.

De qualquer das maneiras é de valorizar a atitude do Alexandre Cunha na organização do debate e só tenho a agradecer o voto de confiança e o convite, porque por outro lado acho irónico estar presente nesta mesa, quando a minha situação escolar ainda não estar resolvida, o que me deixa extremamente feliz.

Neste caso o Bloco de esquerda organizou numa instituição pública (ESAD) um debate sobre a cultura e o seu estado.

A primeira questão que vos ponho tem a ver com a realização de um debate sobre a cultura numa escola de artes do ensino superior organizado e patrocinado por um partido politico e não pela própria instituição, supostamente o maior interessado no assunto, e quais os verdadeiros interesses dos partidos políticos na discussão da cultura?

Se um partido político ou um governo tem um programa cultural assim como tem para a saúde, para os transportes, ou como anda agora na moda para a economia, por exemplo, isto leva-nos a pensar que o programa cultural do país, ou seja a própria definição de cultura de um país seja alterada conforme as opiniões dos políticos e dos partidos que o liderem.

Logo, se for um partido por exemplo de direita, a definição do que para eles deve ser desenvolvido culturalmente no país, varia da de um partido de esquerda.

Assim sendo a politica cultural do pais varia conforme os desejos de quem o lidere, sendo também que os apoios dados às diversas actividades culturais do pais variam da mesma forma. Esta situação faz com que certas áreas da cultura se desenvolvam mais do que outras e esse desenvolvimento esteja sujeito aos critérios de quem está à frente do ministério da cultura e dos departamentos culturais das câmaras municipais e de outras entidades vigentes.

Este sintoma aplica-se também à educação, como a uma escola de artes, por exemplo. Se as pessoas que estão à frente desses órgãos forem simples gestores ou burocratas, preocupados em lidar única e exclusivamente com números, de formas a responder aos seus superiores, eles também, gestores e burocratas, podemos dizer que o serviço é deficiente e que as necessidades dos seus utentes (alunos, por exemplo) não estejam a ser satisfeitas, pois quem está a frente nada percebe do assunto.

Poderemos também dizer que as vertentes culturais mais rentáveis do mercado, como a música ou a literatura, tenham vantagens e privilégios em relação a outras como as artes plásticas ou o teatro, por exemplo.

Outro problema é que se a politica aplicada por quem esta a frente desses órgãos for uma politica de desenvolvimento local, podemos ainda dizer que os produtores locais têm vantagem na obtenção de apoios em relação aos “forasteiros”, independentemente da qualidade pois o único objectivo de quem dá os apoios é fomentar o desenvolvimento regional.

Esta é então uma segunda questão em que penso, por experiencia própria e por, olhando ao meu redor ver que é um problema que existe nesta cidade.

Por exemplo: a maioria dos alunos da ESAD, vem de diversas áreas do país e vejo que é difícil a sua integração na cidade e na população, tanto pela estranheza reaccionária que existe por parte da própria cidade e dos seus habitantes, aos “artistas” e aos “de fora” assim como por um fechamento dos alunos e da escola sobre si próprios.

Acredito que existe infelizmente por parte de quem muitas vezes estuda e vem de fora uma atitude arrogante e de superioridade em relação ao outro, e essa postura acaba por se reflectir nessa recusa do cidadão local e num discurso negativista em relação à própria cidade e às suas instituições.

Assim como existe por parte da população local, um estranheza e um medo do desconhecido, esse medo existe pelo facto de sentirem a sua propriedade ameaçada, e os seus costumes e as suas rotinas alterados perante o “invasor”, e estes pensamentos podem estar na base do fosso que existe entre escola e cidade.

Por outro lado as vezes penso que a cidade está disponível ao apoio de quem vem de fora para desenvolver projectos, mas muitas vezes as pessoas não se querem mexer e lamentam-se que não há apoios.

Ficar sento à espera que as coisas aconteçam não leva a lado nenhum, e acredito que quem realmente quer fazer alguma coisa, faz, com ou sem apoios. A maioria das pessoas que eu conheço neste meio, não vivem da arte, ou da cultura, acredito que a maioria, nunca viverá.

Essas pessoas, das quais eu também faço parte, vivem com outras fontes de rendimento, e se continuam a produzir objectos, ou qualquer outra forma de expressão, muitas vezes sai do seu bolso, e como se costuma dizer, é por amor à camisola.

E de certa maneira ao mexer-me já tive e tenho apoios tanto por parte da câmara das caldas, como participo e desenvolvo projectos, com cidadãos caldenses, assim, como com alunos e ex-alunos da escola, ex-alunos esses que assim como eu foram ficando por aqui.

Também não acho bem que as pessoas não sejam valorizadas pelo seu trabalho e pela qualidade do mesmo, e acho que essa tal maioria, se fosse um mundo justo, viveria só para a cultura. Mas, o mundo não é justo, porque se fosse não haveriam milhões de pessoas a morrer à fome, e alguém se preocupa com isso? Alguém pensa nisso antes ou durante todas as suas boas refeições? Claro que não, não vamos ser hipócritas a esse ponto.

Agora aquilo que penso, é que se cada um de nós fizer um bocadinho, o mundo será um bocadinho melhor, e se tu influenciares a tua rua, a tua rua pode influenciar o teu bairro, o teu bairro a tua cidade, a tua cidade o teu país, etc.

Ao pensar sobre isto e agora para fechar, apresento uma espécie de uma ideia para resolver estes dois pontos.

Acho que os departamentos culturais do país têm que ser independentes dos partidos, dos governos e das câmaras a nível de gestão patrimonial. È lógico que para sobreviver precisará sempre de apoios económicos estatais (e é para isso que também servem os impostos) pois a mais-valia económica que a cultura trará ao país não aparece do dia para a noite, é preciso tempo, é um investimento, como a educação, mais gente formada, mais desenvolvimento, mais trabalho, melhores condições de vida e como a saúde, menos doenças, mais gente sã, melhores condições de vida, etc.

Acho que há vários problemas importantes na cultura em Portugal e um continua a ser ter gente que tem o poder de tomar decisões e que as toma de uma forma errada e sem conhecimento de como as coisas realmente funcionam, afogando muitas vezes à nascença o potencial e a importância no desenvolvimento do país que a cultura tem. Tome-se por exemplo o cinema, quem são os responsáveis pela destruição do cinema português e por quase todas as salas de cinema do país só terem filmes americanos? O Mercado que vende o produto?

A população que muitas vezes não tem acesso a informação e que o seu espírito critico vai sendo anestesiado entre o trabalho e o consumo do que lhes é dado pelos media?

Ou serão as pessoas (supostamente eleitas pelo povo) que estão à frente das instituições e entidades competentes que deveriam ser as primeiras a zelar pelo interesse do desenvolvimento da cultura no país, através da promoção do cinema português em vez da importação constante dos filmes de Hollywood?

Quem determina que os filmes de Hollywood são melhores que os portugueses, quem determina o que é bom e o que é mau?

Quem determina o que é cultura e o que não é?

Serão pessoas que estudaram a história a filosofia e a estética e que sabem distinguir a capacidade que certo tipo de objectos como filmes, peças de teatro, ou musica, têm de por as pessoas a pensar, que distinguem até que ponto esses objectos são profundos e pertinentes, e consequentemente belos e valiosos?

Ou serão políticos e gestores que pensam simplesmente em fazer dinheiro rapidamente e que passado um ano esse dinheiro já se esfumou porque as escolhas que fizeram são modas e interesses económicos, sem qualquer potencial artístico e cultural a longo prazo que enriqueça o país?

Ao mesmo tempo, será que uma pessoa é considerada culta em alguma matéria, ao saber varias especificidades da mesma? Por exemplo, será que um adepto de futebol, pode ser considerado culto por saber o nome dos jogadores todos, o sitio e a data onde nasceram, os jogos dos clubes, etc,?

Será alguém culto, por saber as marcas de roupa todas, e as estações e as modas dos anos x ou y?

Assim como será alguém culto por saber o nome dos artistas todos da história e o que fizeram?

Caso sim, Qual a diferença para distinguir os vários níveis de cultura e o que deve ser desenvolvido a nível cultural no país se as pessoas que gerem esses departamentos não são aptas para fazer tais distinções? E se a própria população se contenta com a “cultura” que tem e não procura nada de novo?

Na televisão, a percentagem de pessoas que vê RTP2 é mínima em relação à SIC ou TVI, por exemplo, e toda a gente sabe que o negócio televisivo é alimentado por audiências. As pessoas podem escolher a RTP2, mas não o fazem. Será que a culpa é dos programadores televisivos ou do próprio espectador que não quer pura e simplesmente ver “diferente”? Sair da rotina? Aborrecer-se?

Por outro lado vejo que no telejornal, temos todos os dias 20 minutos de futebol, e penso que se em vez de 20 minutos de futebol tivéssemos 20 minutos de agenda cultural do país, num curto espaço de tempo as opiniões e os interesses das pessoas iam mudando, porque acredito que também sejam precisos estímulos.

Mas de certa forma é mais importante para quem as gere, o valor das audiências do que o desenvolvimento do país.

Em relação aos privados nada tenho a objectar pois fazem o que querem mas em relação à televisão do estado já me pergunto qual o papel que ela poderia ter no desenvolvimento da cultura do país? Mas já tem um canal alternativo e gratuito visto por uma minoria!

Esta alienação por parte da maioria da população é um facto, nas caldas assim como em quase todas as cidades do país apenas uma minoria dos seus habitantes vai a exposições e outro tipo de eventos culturais (como disse a pouco), e cabe tanto aos produtores culturais como aqueles que estão em frente das instituições tentarem pouco a pouco, trazer mais espectadores aos acontecimentos.

Nesta cidade, são sempre os mesmos que vejo nas exposições, por exemplo, a maioria dos espectadores acabam por ser eles próprios produtores, e funciona quase como mostra entre amigos, pois poucos mais são os interessados.

Neste sentido e sabendo aquilo que é feito por quem produz, cabe saber o que é feito pelas instituições para alterar esta situação.

E cabe a vocês espectadores, tomarem também uma atitude e deixarem de ficar em casa a jogar computador, ou a falar no facebook, ou a ver novelas, cabe também a vocês, saírem à rua, para ver e fazer acontecer a cultura.

A rua é um espaço de todos e é onde acontecem as coisas. Como querem saber se há uma exposição se quando caminham olham para o chão, em vez de olharem em redor, como querem saber o que se passa à vossa volta, o que acontece, quando caminham virados para vocês mesmos.

Por mais culpas que possa apontar aos políticos e governantes deste país pelos problemas existentes a nível de apoios e verbas para a cultura acho sinceramente que os maiores culpados somos nós mesmos, por muitas vezes não abrirmos espaço na nossa mente para o que acontece à nossa volta, pela embriaguez em que vivemos diariamente, pela abstenção critica e pela nossa inércia em fazer algo.

Simplesmente vivemos as nossas vidas olhando para os nossos umbigos, e que alguém há-de fazer o resto! É esta a questão que eu vos deixo, fazem alguma coisa para mudar o mundo à vossa volta?


Pedro Oliveira

24 de Outubro de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Resumo e Análise da obra “A morte do autor” de Roland Barthes

Roland Barthes começa por nos intruduzir ao pensamento da morte do autor atraves de Balzac, dando o exemplo que na novela Sarrasine, Balzac utiliza um castrado disfarçado de mulher e escreve acerca do mesmo “era a mulher, com os seus medos subditos, os seus caprichos sem razao, as suas perturbaçoes instintivas, as suas audacias sem causa, as suas brabatas e a sua deliciosa delicadeza de sentimentos.”, questionando depois se quem fala assim é Balzac e a sua experiencia pessoal de uma filosofia de mulher, o heroi da novela ignorando o castrado que se esconde sob a mesma, ou o autor Balzac pensando ideias literarias sobre a mulher? Barthes afirma que é impossivel sabe-lo porque a escrita é a destuiçao de toda a voz, de toda a origem. Diz entao que a escrita é esse neutro, onde vem perder-se toda a identidade começando logo pelo corpo que escreve. Assim sendo e neste sentido a escrita torna-se independente do sujeito que escreve, do autor.
Ora Barthes diz-nos que sempre foi assim e que, desde o momento em que um facto é contado e não age directamente sobre o real, fora de qualquer função que não seja exercer-se como simbolo, que produz esta diferença, a voz perde a sua origem, o autor desaparece (morre) e a escrita começa. Diz-nos tambem que o sentimento deste acontecimento varia, nomeadamente consoante o tipo de sociedade, exemplificando que numa sociedade etnografica o que se pode admirar é a qualidade de prestaçao de um orador, mas nunca o seu genio, pois o orador, é simplesmente um mediador e nunca o criador de uma narrativa. A ideia de autor, surge so na sociedade moderna, pois atraves do empirismo ingles, o racionalismo frances e a fe pessoal da reforma veio descobrir-se e valorizar-se o indivíduo e o seu valor pessoal. Neste sentido afirma que é logico que na literatura o positivismo resultante da ideologia capitalista tenha concedido maior importancia à pessoa/autor. Isto porque e segundo Barthes existe uma valorizaçao da vida e obra do individuo, e a imagem da literatura corrente é centrada no autor, e na sua pessoa, valorizando-se assim os seus gostos e historia de vida como forma para valorizar o seu trabalho exemplificando com a loucura de van gogh, o falhanço do homem Baudelaire ou o vicio de Tchaikowski, tentando sempre encontrar-se explicaçoes para a obra do ponto de vista de quem a produziu, e desta forma, de uma maneira biografica, relacionar toda a sua produção.
Barthes vem agora num novo parágrafo dar alguns exemplos de autores que tentaram combater esse “império do autor”. Começando por Mallarmé, afirma ele (Barthes) ter sido o primeiro ao ver a necessidade de dar à linguagem a propriedade da expressão e da fala, retirando-a do autor; dizendo que toda a poética de Mallarmé consiste na supressão do autor em proveito da própria escrita e da restituição do seu lugar junto do leitor, através da procura do ponto onde a linguagem actua e “performa” em substituição do “eu”, tornando-a assim impossível de confundir com a “objectividade castradora do romancista realista”. Outro escritor que Barthes usa como exemplo é Valéry, que envolvido com a psicologia do eu, vem pegar na teoria de Mallarmé, para explorar e por em dúvida o Autor, através da condição essencial do verbo na literatura, ao qual “qualquer recurso à interioridade do escritor lhe parecia pura superstição”. Barthes vem também e logo de seguida neste desenvolvimento quase cronológico enunciar Proust como exemplo seguinte, apresentando a ideia de que Proust : “ao fazer de narrador, não aquele que viu ou sentiu, nem sequer aquele que escreve, mas aquele que vai escrever (o jovem do romance – mas, afinal, que idade tem ele, e quem é ele? – quer escrever, mas não pode, e o romance termina quando finalmente a escrita se torna possível) ” vem confundir de uma forma extrema a relação entre o escritor e as suas personagens e desta maneira inverte radicalmente a noção de romance, pois em vez de por a sua vida no seu romance, fez dela a sua própria obra. Para concluir esta introdução ao pensamento de autores que combateram o “império do Autor” Barthes vem agora introduzir-nos a ideia do pensamento surrealista que não poderia dar à linguagem um lugar soberano, pois como Barthes diz: “a linguagem é sistema, uma subversão directa dos códigos – aliás ilusória, porque um código não se pode destruir apenas podemos «jogá-lo» ” e como é lógico o Surrealismo ao recomendar sem fim a ilusão brusca dos sentidos e “ao confiar à mão a preocupação de escrever tão depressa quanto a cabeça ignora”, a escrita automática em suma, e ao aceitar a experiencia de uma escrita feita por vários autores ao mesmo tempo, veio ele próprio contribuir de certa maneira para a destruição desses códigos e assim combater o conceito de autor vigente naquela altura. Desta maneira Barthes chega à conclusão deste segundo parágrafo do texto com a afirmação de que a linguística vem fornecer um instrumento de análise precioso na destruição do autor, mostrando que a enunciação é um processo vazio que funciona na perfeição, sem a necessidade de interlocutores, e que linguisticamente o autor é somente aquele que escreve, sendo simplesmente aquele que diz “eu”, ou seja, a linguagem acaba por conhecer um “sujeito”, não uma “pessoa”, e que esse “sujeito”, fora do que o define, é suficiente para esgotar a própria linguagem.
Neste novo parágrafo Barthes apresenta-nos uma questão que compreende o Autor e o seu afastamento cada vez maior em relação à cena literária, dizendo que esse afastamento não é só um facto histórico ou um acto da própria escrita mas também uma relação temporal entre o acto de escrever, a experiencia do autor e o texto em si. Diz então que “o Autor, quando se acredita nele, é sempre concebido como o passado do seu próprio livro”, supondo que o Autor alimenta o livro, através da existência antes dele e do acto de pensar, sofrer e viver com o mesmo, cria uma relação de antecedência semelhante à de um pai com um filho. Ora este tipo de acontecimento segundo Barthes deixa de acontecer no escritor moderno, que nasce ao mesmo tempo que o seu próprio livro, e que não é de maneira nenhuma o sujeito passado do seu livro, e que para o escritor moderno não existe outro tempo que não o aqui e agora. Diz também que escrever já não se pode considerar uma operação de registo, como acontecia com os clássicos, que acreditavam que a mão era demasiado lenta para acompanhar o seu pensamento ou voz e que por isso acentuavam a necessidade de trabalhar sobre a forma do texto, mas sim um acto performativo, ou seja o próprio acto de escrever em si, a sua mão, desligada da voz, simplesmente escreve através do gesto, este acto, por seu lado não tem origem para lá da linguagem, pondo desta maneira em causa, toda a origem.
Desta maneira o texto, segundo Barthes, já não tem em si um sentido único professado pelo seu Autor mas sim um espaço de múltiplas dimensões onde se escrevem e contestam coisas variadas, sem nenhuma delas ser original, tornando-se assim num campo de múltiplas citações saídas do nosso mundo cultural. Através do exemplo de Bouvard e Pécuchet, Barthes afirma que “o escritor não pode deixar de imitar um gesto sempre anterior, nunca original; o seu único poder é o de misturas as escritas, de as contrariar umas às outras, de modo a nunca se apoiar em nenhuma delas,” e que o que tenta traduzir ao exprimir-se “não passa de um dicionário totalmente composto, cujas palavras só podem explicar-se através de outras palavras…”. Assim o escritor já não tem em si paixões, humores ou sentimentos mas sim um imenso dicionário onde pode ir buscar uma escrita que não pode parar, sendo o livro: um “tecido de signos, imitação perdida, infinitamente recuada.”.
Com esta conclusão Barthes afasta de todo, o autor do texto, e afirma que com o autor afastado decifrar o texto tornasse escusado, inútil, sendo que ao dar um Autor a um texto estamos a dar-lhe um último e único significado, fechando a escrita. Conveniente à critica que desta forma pretende descobrir o Autor através da sua obra, sendo que ao explicar o texto o critico vence, colmatando o facto Barthes afirma “…historicamente, o reino do Autor ter sido também o do Critico…”. Ora para Barthes na escrita moderna tudo está por descobrir, a estrutura pode ser seguida ou apanhada, mas que não tem fundo, percorrendo-se todo o espaço da escrita, que por si só faz sempre sentido, mas também, que se vai sempre evaporando, isentando-a sempre de sentido, e desta forma, ao recusar fechar o texto a um único sentido, liberta a actividade de escrever a um único fim ou sentido, assim torna-se contra-teológica, como diz, recusando Deus, razão, ciência e lei.
Voltando a Balzac, Barthes afirma que nenhuma pessoa disse aquela frase, logo que o seu lugar de origem não é a escrita mas sim a leitura. Através do exemplo das investigações de Vernant, Barthes diz que na natureza da tragédia grega o texto é construído sempre com um duplo sentido e que cada personagem apenas compreende um dos lados, neste sentido é este mal-entendido que cria o trágico, e que existe alguém que entende o sentido duplo de cada palavra, e que assim entende também a surdez de cada personagem, e esse alguém é o espectador / leitor. É desta maneira que para Barthes se compreende e revela o total da escrita, o local onde todas as multiplicidades do texto se reúnem não é o Autor do texto mas sim, o seu leitor e que os clássicos nunca se preocuparam com mais ninguém a não ser com que escreve, ou seja, com o autor, e propõe que para a devolver à escrita a sua qualidade é preciso acabar ou inverter esse mito. Sendo assim Barthes conclui afirmando que “ o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.”

Podemos agora pensar que estas ideias de Barthes não se apliquem só à escrita mas também a todo o universo das artes, ou seja, que por exemplo uma pintura se torne autónoma e independente do seu criador desde o momento em que é exposta e que cada espectador ou leitor da mesma terá uma interpretação singular da obra. Assim a pintura e o que ela representa pertencem a quem a observa e sente e não a quem a criou. De qualquer das maneiras não será o facto de essa obra ser apresentada como arte que a liberta de todas essas imposições e ao mesmo tempo não será o facto de ser arte que a liga ainda mais intimamente ao seu Autor e ao valor que adquire por ter sido criada por ele? Warhol ao criar as suas serigrafias de certa forma potencia e vem afirmar que o acto de criação de arte pode ser feito por qualquer um, pois é um processo facil reprodutível, mas por outro lado criava erros através de uma prévia aplicação de tinta na tela, erros estes que contribuíam para que cada das suas peças fosse única, acentuando e aumentando assim o seu valor de mercado. A meu ver Barthes não apresenta muitas questões relacionadas com o valor de mercado de uma obra, mas acredito que é a existência do mesmo que cria este problema e que é também por esta razão que surge o crítico, para confirmar e valorizar a obra de um certo Autor e assim, decidir o que é valido ou não de entrar nesse mercado, baseado em parâmetros de experiencia, estética e potencial de resposta do Autor relativamente às necessidades do mercado. Ora para finalizar a obra aberta ou a morte do Autor em favor do nascimento do leitor, que Barthes fala, em que o espectador tem de certa forma a leitura final sobre uma obra vem combater estas ideias acima apresentadas, e é nesse aspecto que nos encontramos, basta ficarmos à espera para saber qual é o resultado, se vence o capitalismo e os valores de mercado, ou se vence o interesse humano na liberdade de criação e leitura da arte.





Pedro Oliveira
23 de Março de 2010

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Cronica: "Mais um dia" - para Prego Zine

Acordei tarde hoje, ao abrir os estores para entrar alguma claridade no meu quarto desarrumado, o sol já brilhava alto no céu, feria-me a vista, ainda habituada `a escuridão. Vesti as primeiras peças de roupa que apanhei pelo caminho e pus-me na rua, numa tentativa atabalhoada de aproveitar o resto do dia, visto que a manha já tinha ido toda com o caralho. Uma vontade de punk rock inundava-me as veias, apetecia-me correr, gritar, violar, sentir a música rápida e veloz, com aquelas palavras de ordem simples e objectivas, chocalhar-me a cabeça e urrar ao sol, berrar tudo de uma vez. Como e´ normal, nada disso aconteceu, sai, tranquilo e controlado em passo ligeiramente acelerado e balançante pelas ruas da cidade em direcção ao café do costume, numa de encontrar alguém com quem pudesse conversar um bocado e expressar as minhas ideias, no fundo, só procurava companhia, uma alma que me acolhesse e ouvisse, egoísta como sou, normalmente tenho este tipo de comportamentos, procuro simplesmente alguém que me ouça, mesmo que não tenha nada de jeito pra dizer e esqueço-me que essas pessoas também precisam de quem as ouça. E´ engraçado com `as vezes damos por nós a falar merda e faltamos ao respeito `aquele que nos ouve, estamo-nos mesmo a cagar pra opinião dele, nem sequer pensamos nisso, simplesmente não pensamos nada, só dizemos merda, lixo, conversas de merda, fúteis, vazias, ocas. De certa maneira apenas queremos esvaziar um pouco das nossas mágoas e frustrações, a negritude que nos vem dentro da alma, diria mesmo, que nos atormenta a alma, que nos faz pensar o porquê de vivermos, de continuarmos com esta rotina, de continuarmos, incessantemente a insistir em respirar e em viver de forma igual todos os dias. Acabamos por nos enganarmos a nós próprios, acreditando, que a partir de hoje tudo há-de ser diferente, decididos em mudarmos de vida, e e´ assim todos os dias, nunca estamos bem com o que temos, e queremos mostrar isso a alguém, descarregar querer acreditar que o amanha será melhor. O café estava vazio de caras conhecidas, não encontrei ninguém, fiquei a tomar o meu café, simplesmente acompanhado pelo fumo dos cigarros que fumava e pelas letras gordas do jornal sensacionalista que tinha pousado sobre a mesa. A merda continua!

Pedro Oliveira
Abril de 2011

Cronica: "Facadas" - para Enfarte Zine

Soube no outro dia que o meu vizinho do sexto andar, ah, e devo desde já avisar-te que vivo num prédio de quinze andares, com seis casas por andar, uma mera curiosidade que pode parecer irrelevante para esta nossa conversa, ou melhor, para aquilo que te estava a contar, mas que apresenta bem o problema do encaixotamento dos subúrbios da grande cidade e que de certa forma também serve para reflectir sobre esta nossa sociedade, onde as pessoas e as famílias vivem encavalitadas umas nas outras, presas à vida do trabalho casa e do casa trabalho, sociedade esta cada vez mais virada para o consumo. Problema este o do capitalismo pós-moderno que tem vindo a desrespeitar valores e morais, se bem que de certa parte, ache que os valorzinhos e moraizinhas bem enraizados pela grande velha gorda devam ser desrespeitados, mas há coisas que chegam ao cúmulo, e para mim, o desenfreado consumismo, causa capital, é um deles, quer concordes ou não, embora eu, irremediavelmente o pratique, e aí, contradigo-me, mas, é assim a vida, cheia de contradições!
Ora, de qualquer das maneiras, estava-te a dizer que o meu vizinho do sexto andar esfaqueou violentamente a mulher, como se de um naco de carne de porco se tratasse, como se fosse um saco de boxe onde o pugilista descarrega todos os seus golpes, incessantemente, cheio de fúria, ate à exaustão. Isto aconteceu porque ela queria divorcia-se dele, isto segundo a história que eu ouvi contar pela parte da minha mãezinha que, sendo a conhecida enfermeira do prédio, Dona Clara se prontificou logo a contar-me num desses inúmeros fins-de-semana que lá vou passar. Como é lógico não vou julgar ninguém… acho que hoje em dia cada um faz o que quer, mas esfaquear a mulher! Se ela se quer divorciar, que se foda, divorcio-me, agora esfaqueá-la? Quase até à morte! Arrependeu-se! Se bem que às vezes também me dá vontade de matar, ou agredir alguém, esfaquear, espancar, esventrar violentamente, dar murros e pontapés, cabeçadas e dentadas a certas e determinadas pessoas, só que…vamos ser racionais, não é?
Pois é, o meu vizinho após o acto arrependeu-se! Ligou para o 112 e chamou uma ambulância para a vir socorrer!





Pedro Oliveira
Fevereiro de 2011

sábado, 25 de setembro de 2010

.Trabalho de desenvolvimento do primeiro capítulo “Art Worlds and Collective Activity” do Livro Art Worlds de Howard Becker (1984)



IT WAS MY practice to be at my table every morning at 5:30 a.m.; and it was also my practice to allow myself no mercy.
An old groom, whose business it was to call me, and to whom I paid £ 5 a year extra for the duty, allowed him self no mercy. During all those years at Waltham Cross he was never once late with the coffee witch it was his duty to bring me. I do not know that I ought not to feel that I owe more to him than to any one else for the success I have had. By beginning at that hour I could complete my literary work before I dressed for breakfast.
ANTHONY TROLLOPE, 1947[1883], P.227



É desta forma que Becker inicia o primeiro capítulo do seu livro Art Worlds, apresentando um pequeno excerto de Trollope que eu tomei a liberdade de reproduzir na integra e de certa maneira de introduzir o meu texto da mesma forma, pois acho que se ele (Becker) lhe deu esta importância também eu a tenho que dar pois acaba por ser um excerto fundamental para o desenvolvimento do capítulo. E porquê? Porque apresenta-nos aqui uma quantidade de informação e questões que vão alimentar o seu discurso de como funciona o “Mundo da Arte”e ou nas suas actividades.
Nesta primeira parte e relacionando agora o meu discurso para o que vem a ser o essencial desta pequena introdução a questão central é a relevância ou não do ajudante de Trollope na construção/finalização da obra de arte neste caso literária, ou seja, será que o facto de o acordar com o café todos os dias às 5:30 da manhã é ou não importante para que a obra ficasse completa e será que essa participação é relevante, ou não, para como a obra de arte se forma? Trollope diz que sim, enquanto Becker afirma que poderia ser feita sem o café mas que não foi esse o caso e sendo assim, ganha relevância.
Esta pequena reflexão serve então de mote para todo o seu discurso sobre as actividades artísticas, que assim como todas as actividades humanas, envolve sempre um certo número ou grupo de pessoas, colaborando umas com as outras e, que é através da cooperação que toda a arte que vemos ganha forma. Essas formas de cooperação podem então ser efémeras ou rotineiras, acredito que até mesmo casuais, e são elas que acabam por produzir os padrões das actividades colectivas a que poderemos chamar Mundo da Arte. Assim a existência de um Mundo da Arte acaba por afectar tanto a produção como o consumo da mesma, e Becker sugere então que se faça uma abordagem sociológica à arte e não uma abordagem crítica, que produz juízos e julgamentos estéticos, pois no seu ponto de vista uma abordagem sociológica ajuda a compreender a complexidade de cooperação das redes de trabalho onde a arte aparece, assim como por exemplo as actividades de Trollope e o seu ajudante se misturam com as de impressores, editores, críticos, leitores, etc., assim como nas redes similares de todas as áreas.
Art as Activity

“Art Worlds and Collective Activity” está dividido em vários subcapítulos onde este “Art as Activity” é o primeiro e onde Becker começa por analisar a quantidade de actividades necessárias para aparecer a obra de arte e identifica-as de uma forma estrutural, ordena-as, mas afirma no final deste primeiro capitulo em género de conclusão do mesmo que, esta organização não é uma teoria funcionalista que sugere que todas as actividades têm de correr dentro dos mesmos parâmetros pois sem elas o sistema não sobrevive.
Analisemos então as actividades a que Becker se refere: em primeiro lugar e para começar, a ideia. É lógico que para se construir uma obra de arte qualquer que ela seja têm que surgir ideias, sobre o que se quer fazer, como se quer fazer, etc. Há ideias, assim como ele afirma, que requerem muito esforço a elaborar, outras menos, há ideias brilhantes, outras mais foscas, algumas decorrem durante o trabalho e outras são pensadas previamente e a sua qualidade não está necessariamente relacionada com a forma de como o trabalho é produzido ou resolvido. Em segundo lugar e como é óbvio para a concepção do projecto, a ideia tem de ser executada, dar forma à ideia. Necessariamente isto pressupõe a construção de algo, a transformação de algo imaginário para algo concreto, físico, apesar de ele afirmar e transcrevo: “Most artistic ideas take some physical form: a film a painting or sculpture, a book, a dance, a something which can be seen, heard, held.”, Mas a meu ver, não a maioria mas todas as ideias têm que ganhar uma forma física para se tornarem obra de arte, pois no meu entendimento não é possível ou ainda não foi possível consagrar só a ideia como obra de arte, haverá sempre que apresentar um registo físico do que foi ou é a ideia e os meios para a execução da mesma, como sabemos, são os mais variados possíveis, desde computadores e impressoras para escrever e imprimir livros a pautas de musica que têm que ser tocadas por músicos, telas e outros variados suportes para pintura etc., afirmo com convicção que dentro do contexto artístico contemporâneo actual, qualquer meio e suporte é valido para representar uma ideia, ou como possível obra de arte. Outra das actividades que ele enuncia é então a criação e distribuição de materiais e equipamento necessários que a maioria das actividades artísticas precisam, como por exemplo instrumentos musicais, tintas e pincéis, câmeras de filmar, etc. Neste campo afirma também que a produção de trabalho artístico demora tempo e a produção dos materiais e equipamentos também; como é sabido tempo é dinheiro e os artistas assim como ele afirma muitas vezes têm que arranjar formas de obter dinheiro, para poderem comprar os materiais que precisam para a construção da sua obra, e dou como exemplos trabalhar paralelamente noutro emprego, arranjar subsídios estatais, governamentais, ou, ter pais ricos!
Outra das actividades enunciadas é o apoio necessário à apresentação da obra de arte como por exemplo no caso do teatro, o apoio aos artistas a montagem do palco e dos cenários, o “backstage”, por assim dizer, e na apresentação da obra, como é claro, é necessário também o público, que tem uma importância caracterizada muito bem por esta frase que o próprio Becker apresenta: “…if a tree falls in the forest and no one hears it, did it make a sound?“, ou seja a actividade de ver, de resposta, tem que ser feita, e neste sentido surgem também os críticos, filósofos e teóricos que suportam o trabalho artístico, criando raciocínios que suportam a existência da obra e a sua pertinência, mostrando ser também uma actividade bastante necessária para o aparecimento e consolidação da obra de arte.
De qualquer das maneiras e pegando agora no meu primeiro paragrafo e em jeito de conclusão deste primeiro subcapítulo, se uma ou outra destas actividades não ocorrerem desta maneira ou não forem feitas, isso não inviabiliza a criação da obra de arte pois acontecerá de outra maneira, naturalmente isso afecta a produção do trabalho que já não será o mesmo, mas é diferente de não existir. Becker da como exemplo os poetas, que dependem de impressores e editores para publicarem e mostrarem o seu trabalho, mas se por alguma razão essas facilidades não estiverem disponíveis o poeta pode sempre recorrer a outras soluções como imprimir e publicar de um modo caseiro, distribuir na rua, ou por amigos, ou até mesmo guardar para si próprio, mas nesse caso o trabalho não será reconhecido ou direi mesmo conhecido e como tal é como se não existisse.

The Divison of Labor

Dadas as circunstâncias acima referidas e a quantidade de actividades necessárias para a criação de uma obra de arte, Becker analisa agora a divisão do trabalho na produção da obra, pois dificilmente conseguimos imaginar uma pessoa que faça todas essas actividades sozinha, porque, todas as artes, assim como todas as actividades humanas que conhecemos, envolvem a cooperação com o outro.
Dá-nos então a pensar em todas essas actividades e a pensar que são feitas por uma pessoa, especialista, que não faz nada mais do que essa única operação, assim como uma divisão de tarefas numa linha de trabalho, fabril, industrial, apresentando-nos como exemplo a produção de um filme de Hollywood onde a lista de créditos é interminável, e onde estão descriminadas todas essas funções, como director de imagem, de fotografia, produtor, argumento, luzes, câmeras, etc., proporcionado neste caso por uma industria megalómana e por uma cultura tradicional que, de certa forma valoriza a carreira cinematográfica dos participantes através da inclusão dos seus nomes nos créditos, mas, o que é certo, é que tiveram a sua importância na construção do mesmo.
Noutras situações a divisão de tarefas varia e tem formas mais tradicionais ou rígidas ou ate mais alargadas e híbridas dependendo também da natureza do meio como exemplifica através da relação entre o compositor e o músico em vários estilos musicais: antigamente as duas actividades ocorriam em separado, ou seja, o compositor compunha e o músico tocava, mas que isso não é de todo verdade (e hoje em dia cada vez mais), pois alguns como Beethoven compunham e interpretavam, muitas vezes também porque ganhava-se mais a tocar ao vivo que a compor as obras. Ao contrário do que acontece no jazz onde por exemplo as obras não tem um compositor fixo ou não se sabem quem compôs tais temas pois as obras muitas delas são de origem “popular” e o que interessa neste caso são os seus interpretes e a sua capacidade de improvisação sobre os temas. No rock as duas actividades geralmente são exercidas pela mesma pessoa ou banda e as actividades são separadas ao contrário do jazz onde composição e performance são simultâneas.
Becker diz então que as mesmas variações de divisão de trabalho podem ser encontradas em qualquer arte, como na fotografia onde alguns fotógrafos fazem as suas próprias impressões enquanto que outros deixam essa tarefa para técnicos especializados. Cada pessoa que participa na produção de obras de arte tem então uma tarefa para fazer e cada arte, assenta sobre uma extensiva divisão de trabalhos. Isso é óbvio no caso das artes performativas como foi acima referido, e Becker pergunta se em relação às artes mais solitárias como a pintura, por exemplo, isso acontece. Considera que sim, pois a divisão de trabalho não requer que as pessoas estejam todas no mesmo espaço de trabalho ou que trabalhem ao mesmo tempo. Simplesmente requer que tenham um envolvimento directo ou indirecto com o trabalho exemplificando que os pintores também dependem de quem faça as tintas, os pincéis, os galeristas, os coleccionadores, os críticos, pois sem eles, sem esse suporte o seu trabalho não faz sentido e nesse caso são participantes activos no trabalho, e na sequencia deste desenvolvimento sobre a produção de obras de arte e da divisão de trabalho apresento um excerto de Manoel de Oliveira no jornal “O Público” na sexta-feira dia 9 de Julho sobre a defesa do cinema português na pagina 41: “Cada um dos nossos filmes move um grupo de actores, outros tantos figurantes, e uma equipa técnica completa. Este conjunto de contratados mexe com transportes, com restaurantes, com hotéis, etc., e toda esta gente com aquilo que ganha faz as mais variadas compras com esses pequenos ganhos do seu trabalho, e isto, para além de dos gastos que as próprias filmagens são obrigadas a fazer para produzir cada um dos seus filmes.” Ora se este grupo move com restaurantes, hotéis, transportes, etc., será que também eles sejam participantes na obra de arte e dividam assim, com os artistas e os técnicos, e os realizadores e os actores, o trabalho de fazer uma obra de arte? Será que eles para poderem participar nisso, como o chefe de um restaurante, não necessite também de empregados, de fornecedores de comida, de produtores de comida? Será que esses intervenientes indirectos também trabalham para construir uma obra de arte? Assim como um homem que esteja numa fábrica a produzir tubos de tinta a óleo não creio que esteja minimamente preocupado para onde vão, quem os vai usar, e se isso será arte ou não! Que participe indirectamente no mundo da arte, sim, mas então eu também participo indirectamente no mundo da medicina, e sendo assim, o mundo da arte será de todos e terá a participação de todos assim como todos são de todos os mundos!


Art and Artists

A conclusão do ultimo capítulo dá-nos uma boa introdução para um novo, onde Becker afirma que ambos os participantes na criação de trabalhos artísticos e os membros da sociedade em geral acreditam que fazer arte é só para alguns, pessoas dotadas de talentos especiais, sentidos ou capacidades que poucos têm! Esses poucos são os denominados “artistas”! Neste sentido pressupõem-se que os artistas “dotados” possam produzir trabalhos de uma sensibilidade e expressão de grande valor para a sociedade e por seu lado acabam por usufruir de privilégios que a sociedade lhes concede, impossíveis para o cidadão comum, de forma a poderem ter a “liberdade” de produzir para a mesma, trabalhos de carácter e valor único, se bem que esta situação só existe basicamente na sociedade ocidental.
Na distinção dos “verdadeiros artistas” a sociedade ocidental criou mecanismos e meios de encontrar e diferenciar os artistas dos não artistas, e Becker apresenta dois extremos, por um lado, academias de aprendizagem intensiva e de longa duração onde existiriam os que teriam licença para exercitar a arte após esse longo processo, onde os estados não permitiriam uma arte muito autónoma e controlariam as instituições e onde os artistas se formavam, limitando o acesso à pratica e ao desenvolvimento de qualidades. Por outro lado, como por exemplo nos Estados Unidos da América, uma politica onde toda a gente poderia aprender e os talentosos seriam distinguidos dos não talentos com base no seu sucesso de mercado ou através de outros mecanismos de controlo mercantil! De qualquer das maneiras em ambos os sistemas as pessoas continuam a ter a ideia de que os artistas têm talentos especiais e as suas actividades, mais raras têm a conotação de actividades ou trabalhos feitos por artistas, artísticos, enquanto que outras, menos raras e com um processo de trabalho diferente e por terem menos características de “arte”, mas na minha opinião não menos valoroso, são tratadas com menos respeito como o artesanato por exemplo, no entanto é provado, como todos sabemos, que ao longo dos tempos o estatuto do que é arte ou artístico foi mudando e hoje em dia no panorama da arte contemporânea não é preciso termos qualidades “artísticas” ou técnicas para sermos bons artistas, e prova disso é a arte conceptual onde muitas vezes a apresentação da proposta já conta como a própria obra, ou como o minimalismo, onde muitas vezes as peças não são feitas pelos chamados artistas.

Para concluir, o domínio de uma técnica de construção ou de um processo para atingir um fim também pode ser considerado uma obra de arte e o seu técnico um artista, como exemplifica Becker em relação aos produtores e misturadores de música, pois a capacidade de o manipular electronicamente os sons começou a ser reconhecida como artística, e mais uma vez entramos no panorama da contemporaneidade onde tudo vale, desde que seja bem explicado. E é neste panorama que vamos continuar após os actos de Marcel Duchamp e o rompimento e criação de um novo género de arte.
A arte contemporânea sustenta-se que tudo pode ser arte e que qualquer um pode ser artista e como prova disso veja-se a iniciativa do Museu Guggenheim e da publicação por concurso de vídeos no site da internet Youtube, para serem exibidos numa das maiores instituições representativas da arte contemporânea no Mundo.

Pedro Oliveira, História das Ideias, 12 de Julho de 2010

Desespero na floresta

Na floresta escura,
Uma mulher só, passeava
O sol já se punha ao longe,
Sobre os pinheiros e os montes repousava!
De repente,
Rápido como uma serpente,
Um belo cipreste abate-se sobre o seu corpo inocente,
E ela grita, desesperadamente:
- Socorro, alguém me ajude!
Só os lobos ouviram!

O jovem revolucionário

Gritei sim,
À revolução!
Há revolução!
Mas de nada me valeu,
O povo unido continuava a ser vencido!
A polícia investiu sobre um pequeno grupo de manifestantes onde eu me encontrava!
Cai morto por uma causa que agora achava,
Perdida!

O Erro

Eucaliptos pastam nas paisagens
Modernas
Junto a vias rápidas, estradas automáticas
Consomem, consomem
Os terrenos férteis agora secos
Onde já nada cresce
Oh! D. Dinis
Que rica ideia a tua
Usar a exploração florestal
Para o bem da nação
Da industria naval
Mas o teu erro foi, não
Te lembrares que estamos em Portugal!

sexta-feira, 26 de março de 2010

O fardo do mundo

Nu,
No meu quarto sofro a dor da terra,
Espezinhada por mais de mil milhões de homens,
Arrebatando a si a força de viver,
Sem dó, sem piedade,
Alastrando o vírus de uma sida universal,
Arrebatando a si a força da morte,
Que virá bater à porta de todos!

Gozando agora o privilegio que mais tarde
A terra tratará de nos retirar,
Por egoísmo nosso, por nossa culpa,
Por minha culpa,
Carrego aos ombros um fardo pra burro!

Um fardo do tamanho do mundo,
Que me há de pesar a vida toda,
Que me há de ver viver,
Marreco,
Até aos fins dos meus dias,
E a comichão que me faz a palha nas costas?!


Sinto a culpa, em mim,
Pela morte dos judeus,
Dos quais sou sangue também,
Dos escravos dos campos,
Do Louisiana,
Do algodão doce, amargo,
Que como nas feiras de ciganos e circenses,
Das pulseiras,
Compradas no Martim Moniz,
Que queimam o meu pulso,
Nu,
Sinto a dor da classe media,
Do casa trabalho e do trabalho casa,
Da falta da educação das crianças,
A ausência dos pais,
Sinto-o... porque o sou!
Sou um pobre,
Com aspirações à grandeza,
À salvação de uma humanidade,
Da qual, sou herdeiro de um fardo,
Gigantesco,
Maior que as aventuras dos pobres,
Lusitanos, sem pão,
Obrigados a voltar-se pró mar,
Também ele, vendido aos espanhóis,
Também ele poluído por esgotos,
De uma humanidade, cada vez mais,
Cada vez mais,
Vírus…

Com o ouvido atento,
À guitarra das paredes,
Sinto o fado em mim,
Não choro!
Assumo o peso nos ombros dos jovens do mundo inteiro,
Herdando uma herança, feia,
Mas com a qual os nossos pais sonharam,
Embeleza-la!

Oh! Está cada vez mais pesado,
Como está,
Cada vez mais pesado!
E a comichão que me faz a palha nas costas?!

Manifesto à Praga

E aqui me encontro eu,
Uma vida depois,
Em ansiedade e desespero,
Esperando neste reencontro algo tão belo e único como a união
Entre o sol e a lua.

Pessoas escrevem à máquina curiosidades
Sem nexo
Num reflexo
Constante da tentativa de passarem pensamentos humanos para algo concreto,
Mas nada nunca fará sentido,
Como aquilo que sinto por ti,
Minha bela adormecida,
E assim,
No sono se encontram os sonhos,
Dispersos num turbilhão de luzes, sons e cor.

Pinturas abstractas flutuam numa relação
Com a qual eu não posso concordar
Pois no figurativismo expressivo encontro a minha figura,
Surreal, deslocada, fugitiva e cobarde.

Nessa fuga de uma babilónia perdida no tempo
Encontro o meu espaço,
Um porto de abrigo sem barcos onde todos nós damos à costa,
Náufragos de um cruzeiro de luxo,
Vendido por uma ideologia do que é uma vida feliz e o amor verdadeiro.

Naufragado desse barco encontro neste meu porto de abrigo,
Perdidos como eu e tu,
Animais,
Sobreviventes de um cataclismo mundial.
Amo-te, amo-vos…
Gafanhotos em bando devoram toda a vegetação do deserto
Deixando apenas os troncos secos,
Caules e raízes,
Plantas frágeis,
Ao resto dos insectos que somos,
Mas, dar-te-ei a minha raiz,
Fazendo assim, ao teu lado,
Crescer uma arvore de frutos doces e saudáveis,
Capazes de alimentar este exercito de náufragos.

Oh! Praga que me consome,
Chuva ácida sobre prédios cinzentos e podres,
Liberta-me as emoções e desperta-me para um mundo de sentimentos concretos, e verdadeiros,
Amo-te,
Sem ti a minha vida é apenas um dia de inverno,
Chuvoso, triste.

Lamentavelmente a minha sina é sofrer,
Com a situação,
Da minha visão,
Deste Titanic em que viajamos,
Sou um diccaprio afundado e tu,
A princesa deste filme de um segundo na historia do mundo,
Deste filme românico que é a vida.

Trabalhem, trolhas, trabalhem,
Na construção desta colónia de formigas,
Sujas,
Alimentando a fome de uma qualquer rainha-mãe,
Procriando, procriando,
Mais e mais,
Trabalhem, os trolhas, que trabalhem!

Azedos iletrados discutem numa esplanada, um café,
Futebol, fado e família,
Assombrados por um medo de nessas mesmas discussões
Constatarem factos depressivos sobre esta sociedade contemporânea
À qual são
Ao mesmo tempo produtores e consumidores desse mesmo fruto.

Vencidas as guerras,
A luta pela paz continua
Através de manifestos que nada manifestam,
Perdidos na dimensão de uma subcultura eclética,
Igual a todas as outras.
Manifesto,
Manifestas,
Futilidades absurdas sobre o que é a vida e a morte, o amor, a religião,
Tu que nada sabes,
Eu,
Cagalhão ambulante à deriva num esgoto qualquer,
Descarregado por um qualquer autoclismo que limpa
Toda a merda parida pelo cu dos nossos pais.

Consideram-se felizes merdas,
Sem se perguntarem porque não são xixis,
Líquidos fluidos,
Unindo-se à água e purificando-se.

Pecados,
Pedaços de pão,
Migalhas perdidas dadas aos pombos do jardim
Que em sinal de gratidão nos cagam em cima da cabeça,
Meu amor,
Todas as migalhas não seriam um bolo muito mais potente?
As pedras da Pessoa,
Também eu um dia hei de erguer um castelo,
Pra mim e pra ti,
E pra todos os cavaleiros e donzelas do reino do nada,
Onde nada reina e onde tudo é rei.

Vozes, vocês, nós,
Notas soltas,
Perdidas no ar de um qualquer compositor moderno,
Alucinando no abstracto,
Notas que fogem umas das outras,
Impossibilitando assim uma qualquer composição com nexo,
Música prós meus ouvidos.
Soam,
A pouco,
Tentando erguer o timbre,
Sobrepõem-se umas às outras,
Egoístas, putas,
Merdas de músicas.

Oh! Princesa,
Em tom de pseudo-manifesto te escrevo esta carta,
De um escritor que nada escreve,
Vagabundeando entre realidades diferentes,
Procurando encontrar
Uma realidade na qual me sinta totalmente preenchido e,
Aí, construir um canto escuro,
Um buraco onde me possa esconder e ser superficialmente feliz,
À espera que termine,
Este ciclo vicioso a que chama-mos vida terrena.
Impossível? Talvez. Possível?
Talvez, é tudo relativo,
Oh! Einstein,
Oh! Tu que tens a mania que sabes tudo,
Oh! Tu, e assim como eu, não sabes nada.

Puta, dos gafanhotos,
A puta,
Saltando de um lado pró outro,
Fodam-se todos,
Amo-vos todos,
Cabrões, odeio-vos, odeio-me,
Igual a vocês, igual a todos,
Somos todos,
Ervas daninhas num relvado,
Tentando assim construir e crescer,
Um ervado,
Daninhas,
Doninhas fedorentas,
Peidos de ovelhas criadas pró matadouro,
Peidos que fodem a camada de ozono,
Peidos despreocupados,
Por baixo de um lençol qualquer,
Cheirando egoistamente o cheiro,
Felizes,
Pela podridão do próprio cheiro.

Tenho saudades do conforto de uma cama de lençóis lavados,
A minha cama de infância,
Onde nada me destruía e a vida era simples e feliz,
No entanto sinto aqui,
Uma qualquer sensação de bem-estar,
Que me faz sorrir.

Ganzas fumadas,
Por um qualquer rasta,
Alimentando assim no inconsciente,
Um sonho de um mundo melhor,
Somos a porra de uns charros,
Fritarias e trips,
Com e sem consciência,
Gira a ganza man,
Partilha essa moca comigo amigo,
Irmão,
Amor da minha vida,
Droga, porra,
Agarrados vivem felizes,
Viajam no seu corcel castanho,
Num mundo de fantasias,
Abstraídos da podridão,
Enganados pelo fruto da sua fortuna, da sua desgraça.

A praga,
Porra,
A praga,
Porcos de orwell,
Triunfantes da pocilga,
A praga,
Porra
A praga,
Filhos da puta.
E eu aqui amor,
E tu aqui amor,
E nós aqui,
Amores, pragas,
De um mundo novo,
Subjugando a cultura do povo,
Amem-se, fodam-se, amo-vos!

Ensaio/reflexão sobre o discurso de Péricles em “Guerra do Peloponeso” de Tucídides (pags.187 a 195 do Livro Segundo)

A morte é sem duvida o grande problema da vida do Homem, a morte como é vista, como é encarada, como é chorada ou celebrada!
Nesta abordagem ao texto de Tucídides (Guerra do Peloponeso) e em particular ao discurso de Péricles, não posso deixar de sublinhar as problemáticas e os sentimentos que a morte nos trás, tanto para os antigos, como para nós “modernos”, pois o seu discurso (de Péricles) é de exaltação aos primeiros mortos da guerra, nas celebrações fúnebres da cidade. Posso assim afirmar que ao longo da história do Homem, e usando estes dois (o moderno e o antigo, ou clássico), de tempos distintos, a morte foi sempre encarada como um problema à qual a resposta não é certa, sendo contudo, certa para todos, mas, o porquê da sua existência para nós continua a ser desconhecido! Os Gregos acreditavam em deuses esses sim, imortais, e nós, alguns acreditamos, outros não, alguns acreditam na vida após a morte, no paraíso, outros mais cépticos não, apenas morremos e pronto!
Feita esta pequena primeira observação sobre a morte analisemos então o discurso de Péricles, sem não esquecermos as circunstancias e a envolvência que este discurso tem.
Tucídides começa então por nos dar logo a conhecer um ambiente de Inverno, estação esta sempre associada aos frios e às chuvas sendo que em Atenas não deve ser muito rigoroso, mas Inverno é Inverno, e começa mesmo com “No mesmo Inverno” o que nos remete para um inicio de guerra no Inverno, pois refere-se também às celebrações fúnebres dos primeiros cidadãos que tombaram na guerra, o que pode ser duvidoso é a seguir dizer-nos que seguem as tradições dos antepassados, mas visto a guerra se passar no final da vida de Péricles podemos por a hipótese de ser no inicio de guerra, pois as tradições fúnebres essas sim são dos antepassados e não desta guerra em particular, onde discursará Péricles.
Temos também um tónico que nos dá uma boa noção da ideia de sociedade e do seu sistema também necessário à organização do homem que os gregos tinham, que é a celebração ser feita com o dinheiro do estado, aceitando-se que a guerra surgiu e os cidadãos foram lutar pelo bem de um estado, as despesas do funeral também terão que ser estatais em sinal de retribuição, incluindo uma urna vazia simbolizando os corpos não recuperados, sinal de união, mas também o direito à individualidade ou à unidade familiar/tribal com os corpos a serem conduzidos em urnas pelos elementos da mesma tribo, familiares, que choram a morte dos seus entes!
O discurso de Péricles é bastante elucidativo em relação aos valores da sociedade da Grécia Antiga, muitos deles ainda hoje aplicados, como por exemplo o valor de manter as tradições, a fama/reconhecimento/reputação, a inveja, as leis, a herança, etc. é então com base nestes valores e em algumas ideias da sociedade grega também explícitos neste discurso que através da recolha dos mesmos parto para a abordagem e analise ao seu discurso e numa tentativa de através dos mesmos chegar a alguma conclusão sobre a natureza do Homem!
No início do seu discurso a primeira frase demonstra-nos logo a relação do Homem grego com os seus antepassados, passo a transcrever: “A maior parte dos meus antecessores neste lugar exaltaram os que tornaram este discurso uma obrigatoriedade legal…” uma relação de um sentido de dever obrigatório em manter as tradições, neste caso levado ao extremo de ter sido aplicado como lei e com isso não posso deixar de salientar a frequente referencia durante boa parte do seu discurso aos feitos e aos exemplos dos seus antepassados, dedicando-lhes a primeira menção, pois segundo Péricles, “Foram eles que viveram neste país, sem interrupção, de geração em geração, e, graças ao seu valor, legaram-no livre aos que aqui vivem presentemente.” Faço aqui um parênteses para desde já deixar aqui um aviso as constantes transcrições do texto, pois à falta de melhores palavras para explicar os meus pontos de vista, aproprio-me das palavras de Péricles para o fazer.
No desenrolar desta discurso e como um ponto bem sublinhado refere-se ao valor das acções e da forma como devem ser retribuídas, por consequência a reputação e o efeito de valorizar/desvalorizar tais acções que as palavras podem ter, afirmando que acções pagam-se com acções e que nesse ponto, a celebração do funeral às custas do estado é uma boa forma de honrar os homens perdidos em combate, sentindo em si a pressão de através do seu discurso, poder cair no erro de não valorizar suficientemente os falecidos, e ao mesmo tempo de os sobrevalorizar despontando assim a inveja de quem o ouve, pois afirma que “…os homens só suportam ouvir o elogio dos outros, na precisa medida em que conseguem persuadir-se de que são capazes de igualar as acções exaltadas” e encontramos aqui um outro ponto que merece da minha parte algum destaque, a inveja e a tentativa de igualar/superar o outro. Nesse sentido a capacidade de que fala Péricles é a de através da herança dos antepassados e do desenvolvimento dos presentes, a sociedade grega (Atenas) evoluiu, chegando ao ponto de os seus adversários a verem como modelo e a respeitarem.
A administração de Atenas favorece como Péricles afirma “a maioria do povo, e não uma restrita minoria”, fazendo deste o seu principal trunfo, pois este sistema confere a todos o mesmo nível de justiça e respeito, e a progressão na vida publica depende assim do mérito e das capacidades de cada um independentemente da sua origem ou nível social. Estes valores são assim modelos para outras sociedades e demonstram que em Atenas o direito de igualdade entre os homens livres existia, assim como o direito de liberdade privada, pois existia respeito pela liberdade de cada indivíduo, como podem confirmar na leitura da pagina 189 do Livro Segundo de a Guerra do Peloponeso. Afirma mais, que esse respeito e liberdade que os gregos tinham nas suas relações privadas não fazia deles homens sem leis pois essa precaução encontra-se na educação que os gregos davam aos seus filhos, educação essa que os leva a obedecer ao cumprimento das leis, onde existe uma protecção especial aos “mais fracos” (oprimidos), e a um outro código também, que não estando escrito, pertence sempre à moral e à honra dos homens e quem não o cumpre não deixa de se sentir envergonhado.
Outra das necessidades que os gregos viram que era preciso trabalhar era a recompensa pelo trabalho e a “recreação do espírito”. Como resolveram eles este problema? Através da organização de jogos, festas e sacrifícios durante o ano inteiro numa perspectiva de desanuviar da rotina e entreter o Homem, ao mesmo tempo o embelezamento das habitações e o seu conforto eram vistos por Péricles como “uma fonte diária de prazer que ajudava a esquecer as preocupações”, no entanto mais um factor para melhorar a qualidade de vida era o facto de Atenas atrair o comercio de todo o mundo e como tal o acesso a produtos exóticos e luxuosos do mesmo modo que os produzidos por eles, ou seja, a variedade de produtos e o acesso a coisas novas também eram bastante importantes para a abertura da mente e para as necessidades de viver que os gregos achavam melhor.
Abrindo agora um paralelo entre o paragrafo anterior e este que agora se segue e fazendo uma comparação entre o comercio, a abertura dos gregos às novas culturas e a sua politica de defesa, o que Péricles afirma é que a sua abertura aos olhos estrangeiros e a permissão em deixar entrar na cidade novas gentes não faz deles mais fracos ou menos corajosos em relação aos seus inimigos, pois enquanto que os outros incutem um espírito de coragem através de uma disciplina feroz os gregos vivem do modo que mais os agrada e como tal a defesa daquilo que mais amam é para eles o essencial. Os seus adversários podem então explorar a liberdade dos gregos para se aproveitarem ou tentar aproveitarem-se deles, não preocupando os gregos, pois confiam mais na coragem e capacidades dos seus compatriotas do que no segredo da sua politica, fazendo Péricles, como exemplo, uma comparação entre a postura dos gregos em relação à guerra e a postura dos espartanos em relação à mesma, dizendo que os gregos vão em frente e vencem em qualquer campo e que por exemplo os espartanos já precisavam de apoio de aliados para fazerem o mesmo. Ai refere outro aspecto importante para a sociedade que é o conceito de união da nação, ou seja, ao contrario das sociedades bélicas em que o exercito é a base da sociedade os gregos têm, por assim dizer, mais do que fazer, então muitos dos seus homens estão ausentes em outros serviços e actividades importantes para a sociedade, e quando alguém se confronta com o seu exercito esse é, só uma parte do potencial grego, mas para os seus adversários é visto consoante o caso, como uma vitoria ou uma derrota frente a toda a nação grega, e afirma ainda mais, que o facto de viverem como querem lhes trás essa coragem e esse estar disposto a enfrentar o perigo, e que é isso que os distingue, enfrentando os sacrifícios sempre que for preciso com tanta coragem como aqueles que nunca se livram dos mesmos.
No entanto o facto de estar disposto a correr o risco da morte através da guerra é algo que como é lógico tem que ser tido em consideração pois abdicar da vida em prol de outras e abdicar da sua vida e dos seus bens é um acto que não está ao alcance de qualquer um, e tendo em conta a riqueza dos gregos, ainda mais difícil se torna, como o diz Péricles, entrando aqui num tema sobre a qualidade da riqueza e a sua postura em relação à mesma pois acha que da riqueza se deve usufruir mais da utilidade da mesma do que de ostenta-la, e que em relação à pobreza a desonra está em não reconhece-la mas sim em nada fazer contra ela. Pensa então que o homem grego para alem da sua actividade económica tem que se preocupar também com a politica do estado pois como afirma “diferentemente de qualquer outra nação, não dizemos que um homem que não se interessa pela politica se limita a meter-se na sua vida. Dizemos sim que é um inútil.” Afirma assim que gregos consideram a discussão dos assuntos públicos como um passo preliminar indispensável a qualquer acção prudente, em vez de a considerarem como um obstáculo a mesma. Ora é esta consciência da riqueza e do dever público que os torna um estado poderoso pois só graças à consciência do indivíduo e à sua capacidade de versatilidade, é que o estado evoluiu e ganhou poder.
Esta conclusão que Péricles faz acerca do poder do estado transporta-o para outro problema da natureza do homem que é o desejo de reconhecimento presente e futuro e das marcas necessárias a atingi-lo. Essas marcas são deixadas através da construção de grandiosos monumentos que recordam e deixam assim para as gerações vindouras a enormidade e o sentimento de nostalgia, grandiosidade e poder dos gregos. São estas marcas que fazem de Atenas grandiosa e saudada, que faz os seus homens lutarem por ela, segundo Péricles, para não a perderem, lutando e morrendo por ela, e a percepção que qualquer cidadão se encontra pronto para se sacrificar pela mesma causa, pelo mesmo ideal, a consciência de que o homem luta por ideias e sonhos e que isso lhe da força para vencer em prol de lutar pela apropriação de bens e pela sua própria vida e o medo de a perder. Desta forma demonstra, que o risco dos gregos é superior ao de outros povos que não têm tanto a perder e como tal a consciência da bravura, da coragem, da fama e do heroísmo, e que é através do reconhecimento destes valores nos homens mortos em combate que serve para encobrir os defeitos e imperfeições dos mesmos, uma vez que essa acção limpou as menos conseguidas e dignas e o seu valor como cidadão para a sociedade compensou as suas falhas como individuo e como tal merecedores da gloria, da fama, do reconhecimento e do heroísmo.
Péricles deseja assim, conforto às famílias que perderam os seus homens na guerra em vez de condolências, afirmando que no futuro são inúmeras as incertezas e que ao verem as outras famílias felizes serão levados a recordar outros tempos, mais felizes, na presença dos seus entes queridos, agora falecidos, mas que os poderão recordar sempre como homens gloriosos e que morreram honrosos no cumprimento do seu dever. Afirma também que “as magoas são sentidas não tanto pela falta daquilo que nunca tivemos, como pela perda daquilo a que duradouramente nos habituamos” ou seja, a falta da presença de um pai, ou amigo, ou irmão, é mais dura pelo habito da sua presença, do que por nunca o ter tido, por assim dizer. De qualquer maneira avisa para que nunca se perca a confiança numa nova geração que há-de vir e que ajudará a restituir a alegria e a força perdida das famílias e do estado pelo falecimento dos entes queridos e acaba por fim por concluir o seu discurso dizendo que os filhos dos falecidos serão criados a expensas publicas, mais uma vez mostrando a força e o poder e a força do estado (todos), como forma de recompensa e premio aos familiares dos falecidos.


Envolto em todas estas problemáticas, pergunto-me até que ponto o serviço do estado evoluiu ou (des) evoluiu ao longo de mais de dois mil anos de história; fazendo um paralelismo em relação as democracias hoje praticadas, democracias estas de pouca ou mesmo nenhuma protecção aos cidadãos e trabalhadores das classes mais baixas; pergunto-me até que ponto a educação dos cidadãos evoluiu ou não, tendo em conta a baixa taxa de cultura e níveis de educação do mundo onde vivemos, da alta taxa de criminalidade e pouca moral e sentido ético dos cidadãos, pois no meu parecer estas são necessidades básicas para a evolução da nação. Ao mesmo tempo pergunto-me até que ponto um Homem está disposto a morrer por um ideal, seja ele qual for, até que ponto um homem está disposto a abdicar da sua vida em prol de um ideal de estado, aceitando esta hipótese apenas no sentido da protecção dos seus filhos e familiares, e até que ponto um estado continua a ser democrático, numa perspectiva de guerra, supondo que o seu exercito é formado por cidadãos forçados à mesma, por leis maioritárias?
Vejo nas palavras de Péricles muita consciência e sabedoria e posso mesmo afirmar que me fez despertar novos conhecimentos e pensamentos em relação às politicas praticadas hoje em dia e ao mesmo tempo não consigo compreender ainda o porque do sistema em que vivemos ser assim. Em relação a sentidos e sentimentos mais próximos do homem como o reconhecimento, a fama, a inveja, etc. não posso acrescentar nada demais ao que foi aqui dito e ao que foi dito por Péricles pois nada do que diga pode alguma vez superar ou igualar tais afirmações de inteligência e pensamento sobre o comportamento do homem e nada mais tenho a dizer senão que, concordo plenamente com algumas das suas reflexões no campo da postura e maneira do homem estar, das suas atitudes e dos seus vícios, não podendo contudo, descortinar a cem por cento, simplesmente com este texto, quais as razoes que o levam, que nos levam, a agir assim, a ser assim!





20/12/2009
Pedro Oliveira

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Discurso para Projecto Metapelho, Pizz Buin, 28 de Junho de 2008


Boa noite, meus senhores e minhas senhoras, meninos e meninas...
Estou aqui, ao vivo, em carne e osso, em directo, como momento unico do que sou, do que faço, como pessoa e como objecto artistico em si.
Comecemos entao pelo principio,
quem sou eu e o que faço aqui..
e voces perguntam, quem é este gajo e o que é que este gajo ta aqui a fazer?
com tanta gente qualificada para por aqui a discursar e puseram aqui este personagem, que ninguem conhece, com uma bandeira de portugal atras, por sua vez uma bandeira dos chineses, aqui vestido de fato, como um politico, como se a poitica tivesse alguma coisa a ver com arte...
e nao tem?
mas isso é um ponto a falar mais a frente, por agora, eu, sempre eu, porque eu sou eu, e isso para mim basta.
num momento em que a fama é uma coisa cada vez mais precosse e descartavel, temos que construir-nos ao longo de uma carreira solida e coerente para que possam dar valor ao nosso trabalho, mas eu, ainda mal começei, por isso o meu valor é nulo, ou quase nulo.
escolhi entao, a sala mais pequena deste espaço para orar ou discursar, sobre o que quer que seja..
ha quem queira salas maiores, artistas conceituados,
bla bla bla,
eu, sou um ze ninguem, que apenas vem aqui falar sobre o que isto é como objecto artistico, o tudo e o nada.
sim, o tudo e o nada,
porque esta merda da contemporaneedade tem muito que se lhe diga, dos conceptualismos e dos discursos sobre arte ou sobre o objecto de arte.
os movimentos pos-modernos levaram isto a ser o que isto é, o tudo e o nada.
talvez, a má interpretaçao de marcel duchamp, pelos criticos, se bem que eu tambem nao sei bem o que interpretar.
Curiosamete no outro dia estava a jogar xadrez com um amigo, fez-se me luz, percebi, a beleza do jogo, o raciocinio, o pensamento, a meu ver, essa é a arte, nao o acto em si de jogar, mas sim o que esta por detras disso, o que nos leva a fazer e porque..
a estetica de dois homens a jogar ou de um a discursar, pode ser interessante, o objecto pode ser esteticmente apelativo, ou nao, mas com um conteudo muito mais importante do que o cenario em si,
assim como uma pintura pode ser esteticamente interessante, mas se nao tem jogo, conteudo, perde-se, e acho que é disso que realmente se trata.
Se o conceptualismo e as questoes formais sao
importantes?
acho que sim,
de qualquer das maneiras, tenho que expressar aqui a minha preferencia pelos movimentos modernistas como por exemplo o expressionismo alemao, pois acredito que o belo é o efeito da expressao, daquilo que nos vem na alma e na mente,
para mim, é isso é muito mais belo do que por exemplo, uma tela em branco, nao que esta nao tenha sido importante no seu tempo , no sentido de levantar questoes sobre o que é a arte ou a pintura, neste caso expecifico, mas que supera as necessidades do homem e do real, e eu,com isso nao concordo.
A expressao e o sentimento como forma de arte,
a busca do belo em forma de emoçao, de arrepio, podendo a apreciaçao da estetica ser entendida de diferentes formas de cultua para cultura, enquanto que a vida , a morte, o sentimento em todo o ser humano, em toda a humanidade. nao ha raças, ha homens, culturas diferentes mas sentimentos iguais.
a estetica na arte pertence a um preconceito criado pela sociedade ocdental, mais recentemente por galeristas, curadores, etc, publico que gosta de ter picassos e paulas rego na parede, atrás do sofa, enquanto ve televisao, é estatuto, nao discordo, aceito a sua opçao, mas, nao fazbem a arte, nem ao homem..
questoes por eles levantadas e que agora fazem parte do passado?
nao pode ser..
tem que ser intemporal, tem que tocar a todos, tem que ser sempre contemporaneo.
Nao a efemeridade da arte e do artista vendido.
o vomito que nos persegue, o vomito que temos que cuspir ca para fora e que com o seu cheiro nauseabundo incomoda e toca a toda a gente que passa, que cheira, que ve, que ouve, que sente!
A estetica ou o belo como meio para atingir um fim, como suporte e apoio de uma ideia e nao o contrario.
bem, continuando com este pseudo-discurso, sobre o ser ou nao ser eis a questao, falarei agora daqulo que penso sobre o expectador, de ou da arte contemporanea, ou melhor, da sua atitude ou papel em relaçao á mesma.
A meu ver, dada a conjuntura socio-cultural, provocada pelo pós-modernismo o expectador passa a usufruir de uma liberdade, na qual podeescolher ser activo ou passivo como se pode hoje ver.
livre de escolher o seu proprio caminho, o espectador, assim como o homem, tem a liberdade de escolher.
beber cerveja, ou wisky, de escolher se me quer ouvir ou deslocar-se ate a sala do lado, livre de sair porta fora caso nao goste.
Muitas das vezes o expectador ate é convidado a participar na obra, fazendo assim, parte da mesma.
A posiçao do espetador é sem duvida essencial para o objecto artistico, passivo ou activo, arte sem expectador, nao existe!
seguindo a logica, sendo qualquer ser humano possivel expectador de arte, compreendendo-a ou nao, bastando para isso interagir com a obra.
por exemplo, supunhamos que um pigmeu aborigene australiano vai visitar o louvre, ver pintura renascentista, sem conhecimento sobre o renascimento, será afectado visualmente pelo poder das obras, como tal, é expectador de arte, mesmo que nao perceba um caralho do que se está ali a passar,
é visualmente afectado pelo objecto em si,
pois tudo o que vemos ou ouvimos afecta-nos mentalmente, afecta a nossa maneira de pensar e sentir, mesmo que seja involuntariamente, acredito ser inacto ao ser humano. como tal, o espectador mesmo que passivo será inevitavelmente afectado por qualquer objecto de arte que interfira com o seu campo dos sentidos..
nesse sentido nao consigo entender como poderá o expectador alguma vez ser passivo, será sempre activo, nao activando nada na obra de arte ou no objectoem si, mas sim activando algo na sua cabeça, como por exemplo, consciencia.
seguindo este raciocinio, o que poderá entao ser passivo, ou passificar o expectador?
O proprio objecto, a propria arte.
essa sim poderá ser activa ou passiva, podendo activar consciencias e questoes ao expectador,
ou ser, pura e simplesmente futil, e nao dizer nada de jeito, continuando o expectador a retirar sempre alguma conclusao do que absorve.
assim sendo acredito que nao existe passividade alguma no expectador e na arte.
acredito que existe arte, que afectara sempre a consciencia do expectador, e acredito que existem objectos que se tentam fazer passar por arte, ou que alguem tenta faze-los passar por arte, sem que o sejam, pois o seu conteudo nada tem a ver, para mim, com a minha propria definiçao de arte, mas sim com decoraçao.
de qualquer das maneiras, nao consigo avaliar ou obter conclusoes sobre o que isto é, pois sei bem que decoraçao nao é, mas tambem nao consigo perceber se aquilo que estamos aqui a fazer é arte ou nao,
apesar, de exprimir aquilo que sinto,
talvez, daqui a dez ou vinte anos consiga retirar conclusoes sobre esta estranha situaçao em que me encontro. talvez, com esse distanciamento temporal, consiga perceber mais alguma coisa sobre isto.
nesse sentido e falando sobre conhecimentos so posso aqui, sem querer apontar o dedo, falar das entidades estatais e privadas, que o ensinam, divulgam e activam, como de qualquer coisa que ainda estou a tentar compreender, mas, que acho e acredito que ainda tenham muito trabalho a fazer para a evoluçao cultural deste pequeno jardim á beira mar plantado tao querido para mim. acredito pois que essas entidade por forças que me sao a mim inteiramente desconhecidas, mas sobre as quais poderia conjecturar aqui algumas causas, sobre as quais recusar-me-ei aqui a falar pois é conversa que da pano para mangas, mas, sim, sinto que esses tais poderes nao fazem o suficiente para o desenvolvimento e divulgaçao da arte e da cultura. vendidos!
de qualquer das maneiras acredito que o mais comum dos esectadores nao está interessado em ver e ouvir, nao porque sejam estupido ou ignorantes, mas sim porque simplesmente acredito que é mentalmente muito cansativo ter que aturar merdas destas, ouvir gajos para aqui a falar sobre coisas que cansam, saturantes, eu proprio, penso isso e nao me escondo. ir ao CCB ver a nova exposiçao, ganda seca, ir só por dizer que vou,, pra que?
é logico que é importante ir ver coisas novas e diferentes, aprofundar conhecimentos, mas, se isso incomoda,
para que?
felizmente cada qual tem a liberdade de fazer o que quer e nesse sentido nao censuro ninguem, nao presiso que fiquem nesta sala por piedade ou so para dizer que ca estiveram, mas sim porque acham interessante ou pertinente aquilo que eu digo, ou
simplesmente porque é nesta sala que está a cerveja, e se gostam de a beber, têm que se deslocar a esta sala para vir busca-la, por mim chega-me.
viva a liberdade de expressao e de movimentos.
nao á hipocrisia, se bem que eu sou hipocrita.
nao sejamos hipocritas, vamos aqui admitir, nao o somos todos?
concluindo..
e agora com uma pequena ajuda..
“Basicamente, absorvem, fritam e reagem”

"Pizz Buin é um aglomerado formado por Rosa Baptista, Irene Loureiro, Vanda Madureira e Sara Santos, em 2005, nas Caldas da Rainha,
na ressaca da produção artística e das teorias modernistas, ainda acesas no contexto específico e institucional da escola de arte.
Pizz Buin é um projecto aberto, ao qual é acrescentada uma nova definição sempre que o mesmo é discutido: é um colectivo e não uma colectiva.
Sendo que nesta última década houve uma nova viragem e relevância dada ao espaço artístico institucional, intencionalmente, este colectivo surge inserido no sistema das artes com o propósito de a ele se dirigir.
A grande dinâmica Pizz Buin reside no vivo, na comunicação/descomunicação.
Até ao momento o grupo apresentou propostas que visam abrir a discussão, tomando como objecto-problema vários momentos do foro artístico: enquadramento da obra de arte, a sua vivência/sacralização,
as referências anteriores ao objecto de arte, a história/actualidade, a situação vernissage, as exposições,...
Os vários métodos de actuação (manipulação, apropriação, descontextualização, cutup,...) vão também influenciar a construção e percursos da proposta,
reencontrando também sentido quando apresentados nos lugares de recepção de arte.
As acções Pizz Buinianas assumem um carácter paródico e essencialmente cínico, traduzindo-se na recolocação de questões inerentes ao mundo da arte."
assim sendo, dei-me á liberdade de usurpar este pequeno texto para me ajudar na minha tentativa de definir o que isto é..
Bem, ja chega de disparates,
resumindo o assunto, voltando aqui á arte, e seguido a tentativa de logica do meu discurso.
a arte, nos seus mais diversos tipos de expressao, como a poesia, a musica, o teatro, o video, etc..
para mim, e nesse sentido, tudo o que contem alguma tentativa de consciencializaçao e de melhora do mundo é isso..
arte, e como tal, considero-me um artista, sem me querer por em cima de um estrado ou de um palco, nao so artista plastico, pois nao trabalho so com plasticos, e,
é nesse sentido que se calhar nao preciso dos tais dez ou vinte anos para compreender o que isto é como objecto artistico, pois como se sabe, vale tudo e vale nada!
é isso que isto é, o tudo e o nada,
é por isso que se pode entrar em conflito com isto e ao mesmo tempo compreender e nao entrar em conflito com este objecto,
esta espociçao.

Boa noite, obrigado obrigado.

“Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espectáculos. Tudo o que era directamente vivido se afastou numa representação.”

Debord, G., 1967, A Sociedade do Espectáculo